domingo, agosto 5

Eu


Quando se deu conta do que via, não acreditou por nem ao menos um instante. Poderia alguém furtar-lhe as cousas guardadas na pele?
Tal e qual Roxanne a prima apaixonada, lhe veio à dor duas vezes de se perder o bem amado. E quanto mais se jurava ao sol estar brilhando, mais continuava sofrendo em pranto, pois que este não mais brilha e sim apaga.
Sentiu o cheiro aprisionado das rosas na ante-sala, que a fazia lembrar de sua primeira vez com a morte. Era solitário o cheiro das rosas, assim como o corpo já sem vida em cima da mesa, era isso a alma de Coralina.
Tomou as lágrimas como parte do rosto, quando estas vieram, não as deixou rolar e secar como fazem os tristes, pois não pertenciam a ela e nesse instante deu-se conta de que nada era seu.
Escrevia mil vezes o seu nome na própria pele e nem assim ela sentiu-se pertencente, privada ou mais-alguém. Nesse momento riu involuntariamente, ria de si mesma e das lágrimas, ria também do amor que nunca teria, pois não queria este e se ria dele.
Era sua auto-ironia e em um processo convexo perdia-se em alguma parte, marcando e gritando histericamente “Eu” na pele que não era sua.



Bianca Burnier

miércoles, agosto 1

A Sobriedade das Cores

Na esperança de que algo causasse estranheza ao que sentia, abriu a gaveta do armário e logo de primeira conseguiu identificar o objeto que a faria melhor. Analisou por alguns instantes a forma insegura e pensou no espaço em que ocuparia em seu corpo caso resolvesse engolir tudo de uma única vez.

Em poucos passos alcançou a janela e olhou para baixo ainda segurando o frasco. Tentou agarrar com a mão que lhe sobrara um pouco de ar para levar aos pulmões, como fazia ainda menina e ficou a pensar se não era o ar que abraçaria sua mão e não ela e sua tentativa anterior.

Olhou ao redor e viu as paredes do apartamento muito bem pintadas com cores sóbrias e por instantes o objeto que carregava consigo desequilibrou a sobriedade das paredes, infligindo uma espécie de nova regra ao espaço.
Retornou a gaveta do armário, abriu, e logo de primeira conseguiu identificar o objeto que a faria melhor. Como se previsse o próximo passo pensou que o ar faria bem para seus pulmões e com a mão que lhe sobrara agarrou sobriamente a outra mão, olhou para baixo e pensou no espaço em que ocuparia em seu corpo caso resolvesse engolir todo o ar de uma única vez.

Logo encontrou as paredes dentro do frasco e em longos passos alcançou o ar sóbrio que adentrava no apartamento e fazia com que suas mãos ficassem nervosas, respirou o desequilíbrio para seus pulmões e o seu rosto bem pintado causou estranheza ao se olhar na janela, e como se ainda fosse menina olhou para baixo agarrada ao frasco e desequilibrando as nuvens infligiu uma nova regra ao apartamento.

Bianca Burnier

miércoles, junio 6

A Morte




               Havia uma espécie de crina, fios negros e grossos por sobre seu rosto. E por mais que não gostasse de admitir, não havia animal externo algum. Esses pelos longos que envolviam o rosto eram dela.                                   O animal chamado mulher.
               E mesmo que o nome fosse outro e não se visse como animal, sempre despertava com a impressão de que havia alguma ameaça. Aqueles fios negros, o arfar da respiração de “bicho encarando bicho”. Batalha até a morte, você contra você mesmo. E alguma atmosfera estranha de reconhecer-se pela primeira vez, de ser ao contrário.
               Como se acordássemos depois de noites sem dormir e dentro do quarto existisse aquela presença de você mesmo, uma cousa que antes estava interiorizada e agora liberta- se e espera qualquer distração para tocar a sola dos pés, sentir o gosto do lado de fora. Assistir ao espetáculo por outro ângulo.
               E essa criatura disforme que escapa e que com apenas uma sensação invisível de medo e ela está ali, ao nosso lado, dentro do copo d’água, nas lentes dos óculos, nas palmilhas dos sapatos. Está cada vez mais perto de tocar a pele, de reverter todo esse fluxo e fazer promessas. Nos espera sozinhos, com medo também. Não existe nada além dessa sombra.
               Não existimos mais quando a crina está em nosso rosto. Percebemos marcas roxas na pele que não estavam na noite anterior e uma espécie de sangue seco nos lençóis e a irremediável sensação de que a pouquíssimo tempo o desconhecido nos tomava pelo pânico. O fim aproxima-se e aquele invólucro de animal que encara os órgãos do corpo com habilidade cirúrgica rompe-se. Estaríamos prontas.
               Ela posiciona-se bem acima de nós, uma energia com polaridade diferente da pele e que a permite ficar a exatos três palmos por sobre toda a estrutura. Voltamos ao estágio de natureza, perdemos o conflito e ficamos estáticos até tudo terminar. Vagarosamente nos encara, lambe os fluídos dispersos no lençol, os cabelos alcançam o rosto. Pequenas mortes sobre o corpo e o ciclo estaria completo. Agradecemos a agulha enfincada no meio do peito e esperamos ansiosos pelas próximas noites sem dormir.

Bianca Burnier

domingo, mayo 20

Nem tanto autobiográfico


Bastava que abrisse a boca para que fosse possível sentir o cheiro da bebida misturada com algumas pontadas de dor no baixo ventre, misturadas com o cheiro crônico do cigarro na roupa, misturados com ônibus, celulares tocando impunemente polifônicas sinfonias clássicas, o guarda chuva que esquecemos no banco do metrô e pessoas teoricamente comuns. Na verdade nunca foi preciso que abrisse a boca para dizer nada, tudo sempre esteve exatamente ali nas cores do rosto para que fosse visto. Era quase que uma aparência insossa e autodeclarada de si mesma.
     
          As costas doíam, a cabeça latejava, a  insônia e algumas dormências em certas partes do corpo. Em certas ocasiões...

               Talvez seja melhor riscar todas essas linhas do caderno, antes que alguém descubra que isso não é um conto. Não que seja autobiográfico, é que no mundo de hoje, não se pode ter a dádiva de ser avesso. O problema mesmo é que às vezes eu não sou eu mesma.


“Porra, vinte anos e já sei que vou morrer. Que graça podemos implorar para conseguir algum tipo de sugestão que valha pelo menos a dúvida de que estamos vivos?”

sábado, mayo 19

Como alvorecer flores no corpo:





-Reserve um copo que contenha aproximadamente um dedo de água.

-Um punhado de terra. Meça com o próprio punho, para que se tenha proporcionalidade com o um dedo “próprio” de água.

-Sementes de sua preferência. Dê prioridade a plantas com proporções menores.

-Objeto cortante.

Passo a Passo:

·       Com o objeto cortante faça uma pequena incisão circular, indica-se coxas, ancas e barriga como locais com melhores condições. A profundidade do buraco deve ter de três a quatro centímetros.

·       Com as sementes em mãos, escolha entre quatro a cinco sementes e as adicione na incisão que foi feita inicialmente.

·       Logo em seguida, com o punhado de terra iremos recobrir as sementes.

·       Irrigue as sementes com a água em reserva.


Observação: No período de quinze a vinte minutos a carne da região escolhida irá se fortalecer e progressivamente todo o restante do corpo. Existem casos onde se percebe certo sangramento na região onde o processo foi realizado. Não se abale ou desespere, a quem diga que isso é apenas o corpo exalando o que estava sufocado. Outra frequente preocupação é uma espécie de tinta negra que brota na pele. Letras e palavras que em outro tempo estavam submersas, surgirão nas quadras da pele. E assim marcada na pele, a flor surgirá dos olhos.

sábado, mayo 12



                Você parecia quase certa do que esperava de mim e eu praticamente estava me convencendo a ser o que você esperava. Era uma espécie de jogral, onde indistintamente lançávamos palavras e necessidades. E quando menos esperávamos de nós, era esse o momento que nos misturávamos em uma sintonia dissonante e as pequenas capilaridades do meu rosto derretiam-se por sobre o lençol da sua cama.

               Sempre fora engraçado fazer esse contraste a tudo que era relacionado a esse mundo que nos pertencia. Seu lençol branco e meu rosto derretido do lado da cabeceira. E essa espiral complementar que prosseguia torrencialmente pela borda dos seus pés e permeava alguns problemas antigos que eu aspirava poder reinventar como algo cabível e semelhante as vestes do meu corpo.

               E mesmo sangrando mais um pouco, era o que eu desejava. Essa cousa que caso interrompida fosse, poderia transgredir a minha alma e nos dias seguintes me fariam te esperar do outro lado da calçada. Não pude pedir o retorno de absolutamente tudo que adquirimos depois que as paredes partiram em retirada, e mesmo assim resisti a necessidade de ficar.





Parti sem nada.





E no seio impulsivo da angústia selvagem continuo do outro lado da calçada.








Ao seu lado.
Retornando a mim mesma.